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segunda-feira, 22 de setembro de 2014
No tempo da Admissão ao Ginásio
Quando chegava ao fim o primeiro semestre de aulas de minha quarta serie primária, imaginei que concluiria o curso e iniciaria minha vida profissional. Pensava em cursar o Senai e ir trabalhar numa indústria, talvez a Sifco que ficava perto de casa e “batia o martelo” dia e noite. Mas meu pai interrompeu este pensamento ao me informar que deveria fazer a Admissão ao Ginásio para continuar a estudar. Naquele momento, confesso, me senti frustrado. Não era este meu plano aos 11 anos de idade. O ano era 1961 e me lembro que os anúncios, no final do ano anterior diziam que “de cabeça para cima ou de cabeça para baixo, 1961 seria um grande ano”!
Enfim, lá vou eu para o curso de Admissão ao Ginásio. A primeira reação, no primeiro dia de aula, foi encontrar duas professoras. Uma que lecionava Geografia e Português e a outra que ensinava Matemática e História. Achei que o curso era mais uma preparação para enfrentar mais do que um professor no Ginásio, totalmente diferente do que o Grupo Escolar ou curso Primário. É que no Primário, cada ano havia apenas um professor: no primeiro, dona Benedita, no segundo, dona Odete, no terceiro, dona Gemma e no quarto, dona Priscila.
E no curso de Admissão, com dois professores, confesso que jamais guardei o nome das duas mulheres. E este curso era feito no período da tarde. De manhã, cursávamos o último semestre do quarto ano Primário, com dona Priscila, e à tarde, duas horas com as professoras de nomes esquecidos.
O curso de Admissão desapareceu por completo de qualquer currículo escolar, mas é interessante lembrar sua existência, afinal era mesmo necessário? Jamais entendi sua existência, não me lembro de alguém que não o tenha feito e cursado o Ginásio. Mas como ocorrera em todo Primário, o curso era apenas para alunos, não havia mulheres na classe. Afinal, fiz tal curso no Ginásio Divino Salvador que, naquela época, não tinha alunas e, pelo que me recordo, nem professoras. Alguns anos depois tudo se transformou e as mulheres dominaram o, depois, Colégio, e o grande destaque foi a equipe feminina de basquete...
quarta-feira, 10 de abril de 2013
Os bares da minha vida!
Não sou nem nunca fui, nem me imagino sendo frequentador de bares. Existem espaços na cidade onde as pessoas sentam nas calçadas, pois os bares não comportam mais que dois fregueses e me vejo na obrigação de ir pelas ruas nas minhas caminhadas, pois formam-se rodinhas, bate-papos e um grupo grande de homens bebericando que desvio disso. Sem discriminação, pois cada um leva a vida que bem quer!
Mas me lembro de algumas situações visitas por mim em bares durante minha vida: a primeira delas foi na minha infância quando na rua debaixo onde morava existia o bar do pai de um grande amigo meu, agora já na idade madura. Digo isso, porque numa de nossas conversas, ele perguntou como ia meu irmão Ademir. Quis então saber como conhecia meu irmão, e ele disse que o pai dele era dono do bar na rua da Várzea, em frente ao campo das casas da vila Agrícola onde aconteciam alguns jogos “Rua debaixo contra rua de cima”. E foi então que me lembrei dele. Era neste bar que, religiosamente, todo domingo comprava uma garrafa de limonada Jun-Bra gelada para dividir com meus irmãos no almoço. Após o almoço, no verão, comprávamos sorvetes ali e foi ali que vi em 1959 o Palmeiras ser campeão paulista sobre o Santos, no chamado “Supercampeonato”, pois as duas equipes terminaram a competição com o mesmo número de pontos.
Outro bar que passou em minha vida foi o do japonês, em frente à Sifco, na avenida São Paulo. Era ali que também religiosamente, todo domingo, comprávamos sorvetes de coco queimado. E isso já contei aqui. Enquanto estes dois bares passaram pela minha infância, teve um que existiu em minha vida, já no início da vida adulta. Fazia faculdade e todos os dias ia até o bar do Mário, saborear um lanche para poder frequentar a faculdade à noite, já que trabalhava o dia todo na antiga redação do Jornal da Cidade e tal bar ficava ao lado. Saboreava ali um cachorro quente ou um lanche de frios e um copo de leite para garantir até o final da noite.
Mas houve um bar, ainda, que nunca coloquei o pé dentro dele e nunca cumprimentei seu proprietário: era o Bar do Bizuca, que ficava na avenida São Paulo, próximo à antiga escola do Sesi que a Sifco transformou em estacionamento da fábrica. Não era grande o movimento de fregueses ali, mas uma mesa de sinuca era ponto de encontro dos amigos que além de jogar, tomavam suas bebidas favoritas.
Situações curiosas de nossas vidas que nos envolvem com pessoas e coisas que nos marcam na memória e ficam registradas para sempre no nosso existir!
segunda-feira, 28 de janeiro de 2013
Rosa
Rosa era uma mulher silenciosa, totalmente diferente do marido, Zé Motta. O casamento reuniu apenas parentes, no início dos anos 1960, e os dois ocuparam a casa vizinha à minha! Disse que ela era diferente dele, pois era comum ouvi-lo gritando, logo cedo com seus cães de caça - quatro ou cinco - e o cavalo que ficava ali, como "condução"para a chácara e seu trabalho, geralmente em Várzea Paulista. Isto foi lá pelos anos de 1960. E Zé saia cedo, praticamente de madrugada. Na hora do almoço vinha para casa de kombi, para não cansar o anima. Rosa não saia à rua, se conversava com as vizinhas era pelo muro, às vezes com dona Carlota, de seu lado esquerdo ou dona Angelina, minha mãe, do lado direito, já que não existia telefone. E minha mãe era a mais procurada. Rosa sempre pedia que um dos filhos dela fosse ao armazém do seu Valentim, comprar "alguma coisa". Pó de café, arroz, feijão, ou até o açougue do Iotti, para meio quilo de carne, em bife, para o almoço.
Não sei porque, mas quem estava sempre mais disponível nos horários em que Rosa chamava por minha mãe, era eu. Totalmente sem vontade, lá ia eu para a compra no armazém ou no açougue. Cheguei a ir numa mercearia, comprar verduras e legumes, principalmente numa época em que elas não existiam no meu quintal, pois se existissem, com certeza, minha mãe daria a ela com a maior alegria.
E veio uma fase mais complicada: a gravidez de Rosa e o nascimento de Rosângela. Se antes eu tinha que fazer a compra no armazém e a passava pelo muro ou chamava Rosa ao portão, agora tinha que entrar, "invadir" a casa para entregar a compra. Às vezes nem via Rosa. Do quarto ela agradecia, perguntava quanto tinha de troco e dizia para eu ficar com um cruzeiro. Não sei avaliar, hoje, quanto vale este dinheiro, mas no final de semana eu conseguia arrecadar, dois, três cruzeiros, e comprava
comprava algo para mim, ou na feira ou na saída da escola ou até mesmo sorvete de coco queimado, no bar do japonês, em frente à Sifco. E estas guloseimas eu as devorava em meu quarto, escondido dos irmãos. Absolutamente coisa de criança...
Às vezes Rosa me chamava para o quarto, para ver o bebê, mas eu morria de medo de pegá-lo no colo. Poucas vezes encontrava Zé Motta em casa. O trabalho, com certeza, era muito.
O tempo passou, Rosangela cresceu, Rosa tinha problemas cardíacos, como minha mãe. As duas conversavam sobre as dores no peito, os remédios. Rosa morreu cedo. Não sei precisar o ano ou sua idade, mas partiu antes de minha mãe, e era ainda nova. Rosangela já havia crescido, eu já tinha casado e mudado dali, os cães de caça desapareceram, o cavalo também se foi. Zé Motta comprou um caminhão e manteve a Kombi.
Passei diante da casa dele na semana passada, onde minha casa foi substituida por um galpão, depósito de móveis de uma empresa. O portão da casa de Zé Motta estava aberto, carro saindo da garagem. Talvez o filho ou o genro de Rosangela saindo. Não vi mais ninguém! Mas a saudade de um tempo que não volta mais, me trouxe a lembrança de Rosa: quieta, doce, amiga, que agradecia com um sorriso, pois sua voz, difícil de se ouvir, repetia sempre a mesma palavra "obrigado". Rosa, quieta, doce, amiga, como a flor...
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