sexta-feira, 29 de abril de 2016

Brincadeiras, passeios e lembranças

Lembrei-me dele hoje. Não sei por que, mas sua figura, sua cara de criança, seu jeito de sorrir, de brincar, de falar. Lembrei-me dele hoje. Não só nos seus quatro ou cinco anos, quando começou a brincar na rua de terra em frente de casa. Fernandinho me substituiu como “café com leite” nas brincadeiras de pega-pega, mãe da rua, lenço atrás, esconde lenço, balança caixão. Confesso que já estava cansado de correr pra ser pego, mas ninguém me pegar por ser “café com leite”. E quando Fernandinho, vizinho meu, e irmão do Adilson Fratesi que já brincava com a gente na avenida São Paulo, na Vila Progresso, lá pela segunda metade da década de 1950. Não sei por que, mas me lembrei dele hoje. Tardes de sábado, íamos andar de bicicleta por bairros distantes. Começamos pela Vila Rami, depois Ponte São João. Num belo sábado, décimos ir ao Caxambu. Entre morros, barrancos e caminhos esburacados, desisti! Sentei à beira do caminho e o esperei voltar. Não demorou mais que dez minutos. Meus 12 anos de idade denunciavam este tempo. Construíamos grutas no quintal de nossas casas, fazíamos lagos, criávamos engenhocas para fazer a água circular pelo lago dentro da gruta, sem atingir a imagem de Nossa Senhora de Lourdes. Nos tempos de Natal percorríamos a cidade, visitando presépios para ver novidades. Afinal, o pai de Fernando, seu Antonio, era exímio montador de presépios. Colocava monjolo, moinho, iluminava todo o ambiente e eu e Fernando curtíamos isso, comentando detalhes da montagem. Mas o pai de Fernando teve morte subida. Problema cardíaco. Desses que acabam com a vida sem pedir licença. Exatamente igual a meu pai... Fernando casou, mudou-se para outro bairro. Fiz o mesmo anos depois e mudei de cidade. Depois de 15 anos voltei para Jundiaí, mas já não tinha mais contato. Sou no dia, exatamente no dia em que ele se foi. Recebeu a herança do pai e partiu da mesma maneira. Sem se despedir. Não sei por que, mas me lembrei dele hoje. É que existem amigos que aparecem na vida da gente sem pedir licença, estacionam, conversam, trocam ideias, fazem planos, projetos, mas a vida – sempre ela – muda o traçado, afasta as pessoas que partem sem dizer pra onde vão... Incrível lembrar de um amigo de infância e adolescência... Não faz muito encontrei seu irmão Adilson. Falamos sobre Fernando, lembramos de uma crônica que fiz, falando de seu pai Antonio montando presépio, diz outra falando da gruta da Vila Arens que surgiu e desapareceu. E agora, não sei por que, me lembrei dele! Talvez porque ele deve ter se lembrado de mim onde quer que esteja...

terça-feira, 5 de abril de 2016

A seriedade de Sandro Vaia

Tive pouco contato com Sandro Vaia. Enquanto ele já enveredava pelo Jornal da Tarde, no início da década de 1970, eu começava como revisor no Jornal da Cidade, exatamente no lugar de sua esposa, Vera, que deixara o local. Mas neste começo já ouvia falar muito dele, principalmente por já ter trabalhado neste jornal e porque, no JC tínhamos um amigo em comum: Ademir Fernandes que passava parte do dia em Jundiaí e depois rumava para São Paulo. Fui encontrá-lo em 2009, quando me aventurei a dar aula em faculdade e o convidei para um papo com os alunos do terceiro ano de jornalismo. O contato por telefone foi rápido e ele aceitou na hora a incumbência! Sério, tranquilo, Sandro contou parte de sua vida profissional, agora já aposentado pois deixara a diretoria de redação do Estadão no mesmo ano que deixei o cargo de editor-chefe do Jornal de Jundiaí. A curiosidade maior dos alunos era saber como tinha sido o tempo da ditadura e a censura nos jornais, principalmente no grupo Estado quando um dos jornais publicava receita de bolo e o outro, poemas. Após o papo, conversamos por dez minutos na portaria da faculdade. Sandro não demonstrava pressa, gostava de falar sobre jornalismo e comentamos tempos passados nos jornais locais onde trabalhamos, mesmo que em épocas diferentes: ele já estivera no Jornal da Cidade, e depois esteve também no Jornal de Jundiaí. Lembrou de seu início, no falecido Diário de Jundiaí, que tinha na chefia de redação Waldemar Gonçalves, que também fora meu chefe, anos depois, no Jornal da Cidade. Consegui, graças ao seu nome, que o papo com os alunos se transformasse em reportagem de página dupla no Bom Dia Jundiaí e com chamada de capa. Feliz, distribui jornais na coordenadoria do curso e na diretoria da Faculdade. Afinal, o nome da escola saíra, com destaque, num jornal de cidade vizinha à faculdade. Sandro me ligou para agradecer a publicação, mas retribui dizendo que eu é quem deveria agradecer pela presença dele na faculdade e pelo espaço no jornal. Percebi seu sorriso do outro lado da linha. Afinal, Sandro era assim: sério, compenetrado, mas alegre e feliz quando o momento lhe permitia. Trocamos e-mails anos depois, quando publiquei textos no meu blog, comentando sobre minha amizade com Ademir Fernandes que, assim como Sandro, além de palmeirense, deixou cedo este mundo. E no domingo, no dia em que Sandro foi sepultado, exatamente na hora em que começava o jogo de Palmeiras e Corinthians - e o time de coração de Sandro, Ademir e eu saiu vencedor – percebi o enorme trabalho desenvolvido por ele no tempo todo de trabalho, tanto que o locutor anunciava, no início da partida, que o minuto de silêncio seria em homenagem ao jornalista falecido. Imaginei, neste instante, a grandeza de seu sorriso e de seu coração e lamentei que ele não acompanhou e nem comemorou o resultado da partida!