segunda-feira, 26 de setembro de 2016

O uniforme da cruzadinha

Primeiro domingo ou primeira quinta-feira do mês era sempre assim: meninos de terno azul marinho – calça curta – camisa branca e gravatinha borboleta. Mas tinha que ser gravatinha borboleta! Meninas: vestido branco e boina da mesma cor. Todos de meias três quartos! Isso era vivido no final da década de 1950 e toda década de 1960 na Igreja Matriz de Vila Arens e pelas crianças que pertenciam à Cruzada Eucarística Infantil, comandada pelo Padre Hugo de Souza Ribeiro. No domingo padre Hugo comandava a reunião geral. Participávamos - como de costume - da missa das crianças que era celebrada às 7h30 e terminava exatamente uma hora depois, respondíamos chamada e íamos para casa, tomar café e retornar para a reunião que começava às 10 horas. Nos demais domingos, a missa era no mesmo horário e, em seguida, as reuniões de catequese com catequistas específicas, dependendo da fita usada: simpatizante, aspirante ou cruzado: todas amarelas! Havia ainda o simpatizante – quem não fizera a primeira comunhão – e os apóstolos – fita mais larga, mas que poucos chegavam até a função. Somente um chegou a ter a fita de presidente na minha época: Era o Roberto Luiz Batista: a fita era igual ao do apóstolo, mas tinha o símbolo do papa desenhado nela. As fitas eram transversais, o que fazia as crianças ficarem, a todo instante, puxando a ponta. A reunião geral terminava por volta das 11 horas, com uma série de avisos do mês, leitura de ata, e orientações sempre dadas pelo padre Hugo. Terminada a reunião seguíamos para a igreja onde fazíamos uma hora de adoração ao Santíssimo Sacramento. Cansados, com fome, suando, muitas vezes por causa do calor, mas suportávamos tudo com alegria. Ao final, por volta da meio-dia, saíamos da igreja cantando: “Somos pequenos da Cruzada...” Na porta da igreja éramos dispensados e corríamos para casa almoçar. Isso porque, as 14 horas havia matinê no Cine Vila Arens e o padre Hugo distribuía ingressos para assistirmos ao filme. Era uma alegria só encontrar parte do grupo no cinema: afinal, ganhava o ingresso apenas os mais comportados ou aqueles que não tinham faltas. Na primeira quinta-feira havia apenas a hora santa. Mas ela começava as 19 horas e terminava uma hora depois. Fazíamos este horário juntamente com as senhoras do Apostolado da Oração, senhoras que usavam uma fita vermelha no pescoço! Havia assim um contraste enorme na igreja: estas mulheres, todas vestidas de preto, inclusive com véu da mesma cor, e do outro lado as crianças, sem esquecer que as meninas estava vestidas de branco. Passou o tempo, os uniformes foram substituídos por roupas normal, as celebrações noturnas desapareceram por conta dos riscos de segurança e, por fim, o grupo de crianças, que chegou a mudar de nome no início dos anos 1970 para Juventude Cristã em Marcha, até desaparecer de vez. Ainda hoje vejo na igreja senhoras do Apostolado da Oração e acredito que o que disse agora não desapareceu de vez, pois ficou marcado em minha memória. E toda vez que vejo estas senhoras na igreja, não posso deixar de cantar baixinho, como se a infância nunca tivesse passado: “somos pequenos da Cruzada...!”

quarta-feira, 22 de junho de 2016

Voltando ao passado

Passei hoje pela rua Marrocos, no Jardim Bonfiglioli, e voltei no tempo! Claro que do meu jeito, da minha maneira, mas voltei. Consegui! Parei diante da casa onde morou meu avô José Monarolo e analisei as diferenças. Confesso que, quase 60 anos depois, vi poucas mudanças: a fachada da casa é a mesma, apenas construíram uma garagem para acomodar um carro que naquele tempo não era preciso. Não sei quem mora ali, mas vi que o corredor, que levava ao fundo do quintal praticamente nada mudou. Talvez trocaram o piso, mas vi que o acesso à cozinha, que tinha degraus, hoje não existe mais. A pintura, claro, também mudou. Mas percebi que a garagem quebrou a beleza natural. E voltei a olhar o corredor e vi o fundo do quintal onde antes havia uma cerca de bambu dividindo o local com um terreno baldio. E me lembrei do pé de amora onde subíamos para colher fruta e contar histórias um para outro. Minha memória mostrou ali o forno a lenha onde minha tia Teresa fazia pão. E surgiram em minha memória meus primos Araci, Egle, Edson, José Carlos, Sonia, Adilson, e ainda meus irmãos Ademir, Ana e Osmar. Antonio e Alberto, mais novos, pouco curtiram o local... E me lembrei da rua de terra, com buracos infindáveis e o barranco que havia em frente, hoje cheio de residências. E ri das brincadeiras que passaram por minha cabeça naquele instante e, meio sem graça, dei voltas num carro estacionado, como que brincando de pega-pega. Lembrei também do “esconde lenço” do “passa anel”, da “mãe da rua” e do pega-esconde que era minha brincadeira preferida, pois meus esconderijos não permitiam que me encontrassem. E subi correndo, quase sem fôlego, a rua em frente à casa de meu avô que era o barranco onde, também, brincávamos de “mocinho e bandido” e as armas de fogo eram o dedo indicador. E percebi um garoto no portão, olhando para o celular que tinha na mão e cruzou seus olhos com os meus e entrou correndo para casa. Ri, ao imaginar que fosse chamar a mãe para dizer que havia um louco ali em frente, correndo e pulando guias e sarjetas como se fossem os buracos da década de 1950. E desci rapidamente para a rua Marrocos, novamente, e parei antes de ser atropelado por um carro que vinha como louco – talvez mais do que eu – em busca de seu trabalho e do seu dinheiro. E ri da inocência de mais de 50 anos passados quando ter carro não era importante e correr nada mais era do que brincar de pega-pega. E desci até a rua Pirapora e me lembrei que carros não passavam por ali e agora um semáforo registrava um volume de, pelo menos, dez automóveis ali parados. E decidi, pela última vez, subir até onde morara meu avô e que fora o ponto de encontro meu, de meus irmãos e de meus primos num tempo que nunca mais volta. Parei em frente ao portão, recordei meu avô sentado junto à porta da sala, preparando seu cigarro de palha. Lembrei-me de seu chapéu marrom que escondia sua calvície e percebi que duas lágrimas estacionaram em meus olhos, querendo escorrer. Respirei fundo, dei meia volta e quis voltar à realidade. Mas as lágrimas não permitiram e deram as mãos com outras e mais outras e desceram pelo meu rosto, ao tempo em que buscava a outra rua, de outro tempo, de quase 60 anos depois...

segunda-feira, 6 de junho de 2016

Chega ao fim a alegria de Valter Tozetto Júnior!

Ninguém pode dizer que não era assim: sorriso permanente e uma vontade incrível de viver! Conheci Valter Tozetto Júnior na redação, no laboratório, nos corredores do Jornal de Jundiaí. Sempre brincando com os colegas de trabalho, Valtinho – chamado assim por todos -, estava sempre disponível para o trabalho: máquina fotográfica em punho, mochila com equipamentos no ombro e lá ia ele em busca de notícias. Foram alguns anos de convivência na redação do jornal, até porque aposentei e deixei o emprego, mas me lembro de sua atenção e cuidado na hora da escolha de fotos para a capa. Foi sempre que me indicava a melhor que fizera! Eu argumentava que era difícil escolher a melhor, pois todas eram perfeitas e ele sorria, balbuciava um “obrigado chefe!” e se afastava sorridente, sabendo que a foto que indicara estaria na primeira página do jornal no dia seguinte. Interessante é que sempre vinha agradecer a publicação. E o agradecimento vinha acompanhado do sorriso de quem tinha certeza de que fizera o melhor! Como disse, conheci Valtinho na redação – pois era ali que ele passava em busca de pautas. Disse que o conheci no laboratório, pois era ali que definíamos sua foto para a capa do jornal. Disse que o conheci nos corredores do Jornal de Jundiaí porque era ali que ele passava cantando. E sua música preferida era sempre “Sandra Rosa Madalena”. Foram muitas as vezes em que colocou a mão no meu ombro e me fez cantar com ele o refrão desta melodia. Ríamos juntos, ele seguia para o laboratório e eu voltava para a redação. Depois da separação profissional, nos encontramos algumas vezes em algum evento ou até mesmo em casamento de amigos que ele era o fotógrafo oficial. A última vez que o vi foi em 2012. A doença já deixara marcas em seu rosto. O sorriso constante tinha uma marca de dor, mas ele seguia em frente, sempre espantando o que atrapalhava sua alegria de viver. Não tenho dúvidas de que as chuvas deste final de semana eram as lágrimas de Deus chorando a dor deste jovem fotógrafo e cantor. E como todo bom pai, Deus o tomou em seus braços para lhe dar conforto e aliviar seu sofrimento. Foram muitas as lágrimas de Deus que rolaram e se juntaram às de centenas de amigos que sentiram a grande perda. Valtinho se foi. Partiu! Não disse adeus a cada um dos amigos, pois eram muitos e o tempo de despedida era curto. E o fotógrafo silenciou o clique! E o cantor desligou o microfone para sempre! “Sandra Rosa Madalena” que ainda ecoa no meu ouvido e o sorriso do jovem fotógrafo correndo de lado a outro para registrar a notícia colocam o ponto final na vida de um profissional cheio de vontade de viver, mas que a dor o transportou para a paz eterna!

sexta-feira, 27 de maio de 2016

O adeus a Marco Benatti

Conheci Marco Benatti no início da década de 1990. Ele, como diagramador e eu como editor de Política e Economia do Diário do Povo. Brincalhão, riso fácil, mas acima de tudo competente naquilo que fazia. Nas sextas-feiras, quando fazíamos aquilo que chamávamos de “pescoção” – que era o adiantamento da edição de domingo – Benatti, com sua calculadora, prancheta e todo o “kit” dos diagramadores, percorria as mesas dos editores em busca de páginas para fechar. Quando assumi o cargo de editor-chefe, Marcão – como todo mundo o chamava – virou repórter e em pouco tempo já era repórter especial. Mesmo depois de repórter ele não esquecia os amigos: sempre que preciso fosse, apanhava o “kit” e ajudava a adiantar o jornal. Afinal, todo mundo queria sair mais cedo. Por conta de trabalhos extras dentro do jornal, acabamos criando uma empresa: Benatti, eu e mais dos colegas de redação: Chico Sanches e Marcelo José do Canto. Mas a empresa não dava lucro ou o dinheiro que entrava todo mês, a gente comprava carne, carvão e cerveja e comemorava, em família: o churrasco era na minha casa e Marcão vinha com Evelyn, sua noiva e Chico também trazia a sua noiva, Tania. Marcelo sempre tinha outros compromissos, não podia vir, mas a gente encerrava a noite jogando truco. Mas Marcão fazia questão de antes da carne e da cerveja, sentar no chão da sala de minha casa, e jogar vídeo-game com meu filho de seis anos, Tiago Alexandre. Mas como a nossa profissão é cheia de alternativas, nos separamos. Fui para São Paulo, voltei para Jundiaí e foi aqui que voltei a ter notícia deste grande profissional: era editor-executivo em Piracicaba, mas logo assumiu a mesma função no Bom Dia que iniciava suas atividades em Jundiaí. Vi e conversei com Marcão exatamente no dia em que ele foi embora de Jundiaí, quando deixou o Bom Dia. Foi chamado pela direção do JJ onde eu trabalhava, para – quem sabe? – assumir meu lugar, pois estava aposentando. Conversamos sobre isso na “rampa” do JJ. Marcão sorriu, desejamos boa sorte, perguntei pela família – “casei com a japonesa e tenho duas filhas”, sorriu ele – e nunca mais nos vimos. Na ingratidão desta profissão, Marcão partiu neste feriado, num acidente de trânsito. Virou o que sempre gostou de fazer: notícia! A partida deste grande profissional provocou uma dor muito grande em mim. Afinal, foram muitos anos de trabalho juntos, mas como disse, a profissão de jornalista é cheia de alternativas e, acima de tudo, ingrata! Perdi alguns amigos: uns pela idade ou por doença, outros de repente, num infarto provocado pelo desgaste do trabalho, mas Marcão foi diferente: num acidente de trânsito que continua tirando vida de tanta gente neste nosso Brasil. Sei que está na paz do Senhor, agora, meu amigo, mas isso não elimina o vazio que ficou dentro de mim!

sexta-feira, 29 de abril de 2016

Brincadeiras, passeios e lembranças

Lembrei-me dele hoje. Não sei por que, mas sua figura, sua cara de criança, seu jeito de sorrir, de brincar, de falar. Lembrei-me dele hoje. Não só nos seus quatro ou cinco anos, quando começou a brincar na rua de terra em frente de casa. Fernandinho me substituiu como “café com leite” nas brincadeiras de pega-pega, mãe da rua, lenço atrás, esconde lenço, balança caixão. Confesso que já estava cansado de correr pra ser pego, mas ninguém me pegar por ser “café com leite”. E quando Fernandinho, vizinho meu, e irmão do Adilson Fratesi que já brincava com a gente na avenida São Paulo, na Vila Progresso, lá pela segunda metade da década de 1950. Não sei por que, mas me lembrei dele hoje. Tardes de sábado, íamos andar de bicicleta por bairros distantes. Começamos pela Vila Rami, depois Ponte São João. Num belo sábado, décimos ir ao Caxambu. Entre morros, barrancos e caminhos esburacados, desisti! Sentei à beira do caminho e o esperei voltar. Não demorou mais que dez minutos. Meus 12 anos de idade denunciavam este tempo. Construíamos grutas no quintal de nossas casas, fazíamos lagos, criávamos engenhocas para fazer a água circular pelo lago dentro da gruta, sem atingir a imagem de Nossa Senhora de Lourdes. Nos tempos de Natal percorríamos a cidade, visitando presépios para ver novidades. Afinal, o pai de Fernando, seu Antonio, era exímio montador de presépios. Colocava monjolo, moinho, iluminava todo o ambiente e eu e Fernando curtíamos isso, comentando detalhes da montagem. Mas o pai de Fernando teve morte subida. Problema cardíaco. Desses que acabam com a vida sem pedir licença. Exatamente igual a meu pai... Fernando casou, mudou-se para outro bairro. Fiz o mesmo anos depois e mudei de cidade. Depois de 15 anos voltei para Jundiaí, mas já não tinha mais contato. Sou no dia, exatamente no dia em que ele se foi. Recebeu a herança do pai e partiu da mesma maneira. Sem se despedir. Não sei por que, mas me lembrei dele hoje. É que existem amigos que aparecem na vida da gente sem pedir licença, estacionam, conversam, trocam ideias, fazem planos, projetos, mas a vida – sempre ela – muda o traçado, afasta as pessoas que partem sem dizer pra onde vão... Incrível lembrar de um amigo de infância e adolescência... Não faz muito encontrei seu irmão Adilson. Falamos sobre Fernando, lembramos de uma crônica que fiz, falando de seu pai Antonio montando presépio, diz outra falando da gruta da Vila Arens que surgiu e desapareceu. E agora, não sei por que, me lembrei dele! Talvez porque ele deve ter se lembrado de mim onde quer que esteja...

terça-feira, 5 de abril de 2016

A seriedade de Sandro Vaia

Tive pouco contato com Sandro Vaia. Enquanto ele já enveredava pelo Jornal da Tarde, no início da década de 1970, eu começava como revisor no Jornal da Cidade, exatamente no lugar de sua esposa, Vera, que deixara o local. Mas neste começo já ouvia falar muito dele, principalmente por já ter trabalhado neste jornal e porque, no JC tínhamos um amigo em comum: Ademir Fernandes que passava parte do dia em Jundiaí e depois rumava para São Paulo. Fui encontrá-lo em 2009, quando me aventurei a dar aula em faculdade e o convidei para um papo com os alunos do terceiro ano de jornalismo. O contato por telefone foi rápido e ele aceitou na hora a incumbência! Sério, tranquilo, Sandro contou parte de sua vida profissional, agora já aposentado pois deixara a diretoria de redação do Estadão no mesmo ano que deixei o cargo de editor-chefe do Jornal de Jundiaí. A curiosidade maior dos alunos era saber como tinha sido o tempo da ditadura e a censura nos jornais, principalmente no grupo Estado quando um dos jornais publicava receita de bolo e o outro, poemas. Após o papo, conversamos por dez minutos na portaria da faculdade. Sandro não demonstrava pressa, gostava de falar sobre jornalismo e comentamos tempos passados nos jornais locais onde trabalhamos, mesmo que em épocas diferentes: ele já estivera no Jornal da Cidade, e depois esteve também no Jornal de Jundiaí. Lembrou de seu início, no falecido Diário de Jundiaí, que tinha na chefia de redação Waldemar Gonçalves, que também fora meu chefe, anos depois, no Jornal da Cidade. Consegui, graças ao seu nome, que o papo com os alunos se transformasse em reportagem de página dupla no Bom Dia Jundiaí e com chamada de capa. Feliz, distribui jornais na coordenadoria do curso e na diretoria da Faculdade. Afinal, o nome da escola saíra, com destaque, num jornal de cidade vizinha à faculdade. Sandro me ligou para agradecer a publicação, mas retribui dizendo que eu é quem deveria agradecer pela presença dele na faculdade e pelo espaço no jornal. Percebi seu sorriso do outro lado da linha. Afinal, Sandro era assim: sério, compenetrado, mas alegre e feliz quando o momento lhe permitia. Trocamos e-mails anos depois, quando publiquei textos no meu blog, comentando sobre minha amizade com Ademir Fernandes que, assim como Sandro, além de palmeirense, deixou cedo este mundo. E no domingo, no dia em que Sandro foi sepultado, exatamente na hora em que começava o jogo de Palmeiras e Corinthians - e o time de coração de Sandro, Ademir e eu saiu vencedor – percebi o enorme trabalho desenvolvido por ele no tempo todo de trabalho, tanto que o locutor anunciava, no início da partida, que o minuto de silêncio seria em homenagem ao jornalista falecido. Imaginei, neste instante, a grandeza de seu sorriso e de seu coração e lamentei que ele não acompanhou e nem comemorou o resultado da partida!

quarta-feira, 30 de março de 2016

Antes do Velório Municipal

Até a década de 1970 Jundiaí não tinha seu velório municipal nem seu serviço funerário. Existiam na cidade, nesta época, duas funerárias: Madeira, localizada na rua do Rosário, na praça Governador Pedro de Toledo,e a Bonifácio, localizada na rua Vigário JJ Rodrigues, esquina com a rua Secundino Veiga. Além destas duas, surgiu nesta época, mas por pouco tempo, uma na Vila Arens, na avenida São Paulo. O movimento maior era por conta da Funerária Bonifácio, mas os dois serviços eram executados por empresas familiares, muito comuns nos últimos tempos. Quando falecia alguém, a cidade era forrada de papeis anunciando falecimento, era preciso anunciar também nas emissoras de rádio e os velórios eram realizados nas casas dos falecidos. Um pano preto do tamanho da porta da casa, com uma cruz enorme desenhada no meio dele, era fixado em local estratégico, para anunciar que ali havia um velório. Até o ano de 1973 só havia o cemitério Nossa Senhora do Desterro, na região central da cidade. Neste ano foi criado o Cemitério Nossa Senhora do Montenegro e só depois surgiu o particular, Cemitério Parque dos Ipês. Casas com grandes quintais acomodavam os visitantes enquanto esperavam a saída do enterro, mas as menores eram difíceis: era comum ver um grande número de pessoas próximas à rua, principalmente casas onde a porta da sala era na calçada, com o pano preto balançando ao vento. Lembro-me de parentes de falecidos que durante três noites após o sepultamento, rezava-se o terço. Em outras o terço se prolongava até a missa de sétimo dia. Tudo pelo descanso eterno do parente. O carro fúnebre chegava à residência do falecido meia hora antes da partida do féretro. O número de pessoas e carros começava a crescer nas redondezas. Havia lugares que o trânsito ficava impossível. E o enterro saía exatamente no horário marcado. O último, sempre por volta das 16 horas. Para dar tempo de chegar ao cemitério e efetuar o sepultamento, antes da noite cair. Hoje, a maioria dos velórios acontece junto ao cemitério do sepultamento. Até para evitar trânsito. Claro que já se anuncia mais um cemitério particular na cidade, mas isso é por conta do crescimento da cidade, cuja população já ultrapassa os 400 mil habitantes. Mas é sempre saudoso lembrar dos velhos tempos de velórios na cidade e das famílias Bonifácio e Madeira responsáveis pelo procedimento de sepultamento.

segunda-feira, 14 de março de 2016

O sorvete de abacate

Tem coisas que acontecem na vida da gente que não esquecemos. Por mais que o tempo passe, por mais distante que o fato fique da atualidade, não tem como: não dá para esquecer! E este fato ocorreu na metade do século passado, quase no final do milênio! Já contei aqui que o quintal de minha casa tinha um verdadeiro pomar e uma horta de dar água na boca em qualquer um. E era no fundo do quintal que existia um pé de abacate enorme. E carregava todo ano! Era tanto abacate que eu e meus irmãos saíamos vendendo na vizinhança! O pé era enorme: imagino que mais de dez metros de altura e difícil de alcançar os galhos mais altos. O galho mais baixo estava a mais de três metros do solo e era difícil subir por causa do tronco: ninguém conseguia abraçar o mesmo... Para colher a fruta, meu pai arranjou um bambu enorme, colocando na ponta do mesmo uma caçamba para segurar o abacate. Na hora da colheita, eu era um dos chamados por meu pai para ajudar. Sacola na mão e correndo para tirar o abacate colhido na caçamba. Sacola cheia, serviço feito! Agora era consumir ou vender até que... até que um belo dia chegaram em casa os irmãos Walter e Geni. Ele, mais velho, amigo de meu irmão mais velho, Ademir. Ela, um pouco mais nova, amigo da minha irmã, um pouco mais nova que Ademir, Ana Maria. E Geni se entusiasmou com o tamanho da fruta e a quantidade. Foi aí que ela teve a ideia e sugeriu: “por que vocês não fazem sorvete de abacate? Tenho geladeira em casa, posso fazer pra vocês!” Naquela época, final da década de 1950, geladeira e televisão eram raros nas casas das pessoas. Televisão virou televizinho e geladeira a gente trocava por refrigerantes gelados, no bar da esquina... Claro que a sugestão foi aprovada e aceita por todos. Manhã de sábado, pai e filhos no quintal colhendo abacate, colhendo abacate, colhendo abacate! Sacolas cheias e os irmãos que eram amigos levaram as sacolas com a fruta que se transformaria em sorvete! Walter e Geni moravam na mesma rua que nós, um quarteirão pra frente, vizinhos do açougue do Iotti que existe até hoje. Fruta entregue, os irmãos Walter e Geni convidam para saborear o sorvete na tarde de domingo, vendo televisão. E no dia e horário lá estávamos nós: eu e meus irmãos para saborear sorvete de abacate. O combinado era que traríamos um pouco para nossos pais. Para que ninguém ficasse sem. Sentados na sala, vendo televisão: não me lembro do programa, pois a atração era o sorvete que estava saindo do congelador! E lá vem Geni com o produto para ser distribuído para todos. E é aqui que veio minha decepção: sorvete feito nas formas de gelo e distribuído – dois ou três cubinhos numa tigela e uma colher. Era com a colher que levávamos o sorvete à boca para sentir o gosto, lamber ou chupar e devolver na tigela. Minha decepção não foi com o sabor do sorvete; viro para minha irmã e pergunto: “Por que não tem palito?” A pergunta tinha sua razão de ser, afinal, sorvete tinha que ser de palito, já que não existia, naquela época, receita de sorvete de massa. Ana Maria sorri e diz que era só ter colocado o palito que ficava sorvete de palito. Mas voltei a questionar, principalmente por conta do tamanho do mesmo, já que as formas de gelo eram de cinco centímetros de altura, pequeno para os palitos de sorvete. Saí dali decepcionado, querendo sorvete ‘de verdade’. Lembro que meus irmãos voltaram para casa comentando o sabor e este retorno tinha que ser rápido, para que os sorvetes de meus pais não derretessem. Foi só em casa que me conformei com a ausência do palito, ao ganhar mais dois cubinhos – um de meu pai e outro de minha mãe - de um sorvete incompleto!

segunda-feira, 22 de fevereiro de 2016

Doce... Vingança fatal!

Não dá para dizer que aquele diabético estava certo no que fez. Mas... Imagine que ele, por conta de sua doença acabou sendo aposentado bem antes do tempo! Aposentado por invalidez! Teve dois dedos de um dos pés amputados e tinha dificuldade em andar. Sua sorte é que no quarteirão de sua casa havia um condomínio residencial e um dia, por conta do baixo benefício que recebia (alguém recebe um bom benefício do INSS?), se candidatou a uma vaga de porteiro e foi contratado. Tudo bem que eram 12 horas seguidas de trabalho, mas ele tinha 36 de folga depois... mesmo que o trabalho se resumisse a permanecer o tempo todo sentado: abrindo portão para visitantes ou moradores, conversando com pessoas do prédio. Difícil era seu horário: entrava as 18 horas e saía 12 horas depois. Quando o sol, muitas vezes, ainda estava dormindo... Chegava em casa dez minutos depois, curtia a família, ouvia rádio, via televisão, apreciava o movimento na rua até a hora do almoço para, depois, dormir até o início da noite. Uma rotina nos dias que trabalhava até que... até que, num início de tarde surgiu na rua de sua casa o “Dito Mineiro”. Ele vestiu o pijama, puxou o lençol, deitou, pensando em dormir quando seus ouvidos sentiram o som da rua: “Olá dona de casa! Aqui é o Dito Mineiro com doces de Minas Gerais: doce de leite, doce de coco, doce, doce, doce!” Aquilo soou como uma provocação! De onde surgiu este som? Este carro? Quem é Dito Mineiro? Durante cinco, dez minutos, o som permaneceu assim, praticamente em frente à sua casa. Não foi olhar pela janela para ver se tinha gente comprando doce. Afinal, sentiu que sua pressão se alterara e que, com certeza, o açúcar no seu sangue também. O sono não veio naquela tarde. Não tinha como vir. Foi embora com o Dito Mineiro! Aquele som ficou martelando sua cabeça durante alguns dias até esquecer. Mas quando pensou que esquecera... “Olá dona de casa! Aqui é o Dito Mineiro...” Seu corpo tremeu na hora em que deitava na cama. Exatamente na mesma hora do outro dia. E o sono foi embora, de novo, com Dito Mineiro! As coisas começaram a não ir bem no serviço, o sono vinha sempre na hora errada. Em sua cabeça estava Dito Mineiro, o homem que não o deixava dormir! Mas sua mente começou a trabalhar. De uma maneira diferente do que fazia todo dia. Ele pensava, planejava, maquinava uma forma de se livrar de Dito Mineiro e seus doces assassinos! E a ideia se tornou um projeto e o projeto se tornou real: Seu carro seria sua ajuda e sua mulher a cúmplice! Difícil foi convencê-la a participar da ação. Mas a dosagem de açúcar no sangue do marido, a pressão elevada, as tardes mal dormidas e o projeto se tornou real. “Olá dona de casa!...” Pronto! Hora de dar o primeiro passo! Carro sai da garagem e sua mulher segue Dito Mineiro pela cidade até este chegar em casa e guardar o carro na garagem. O primeiro passo não foi difícil. Descoberta a moradia de Dito Mineiro, faltava executar a parte final do plano. E lá vai o casal na noite de folga do porteiro: duas horas da manhã, eles deixam sua casa em direção ao espaço onde Dito Mineiro mora e dorme. Dez minutos depois param em frente à casa do homem dos doces. A rua dorme, os moradores dormem e, com certeza Dito Mineiro também. Hora de colocar o plano final em prática: o porteiro liga o som, olha para a esposa e os dois riem do passo seguinte: “Alô Dito Mineiro! Sou diabético, trabalho à noite e durmo durante o dia e não posso comer doces e preciso dormir. Vim aqui pra te desejar uma boa noite sem sono!” O alto falante do carro ecoou pela rua silenciosa, algumas luzes se acenderam em algumas casas, portas se abriram. Algumas pessoas saíram até o portão para ver o que acontecia. Enfim, a luz se acendeu na casa de Dito Mineiro. A vingança, para o casal, estava completa. O que não se esperava era a reação de Dito Mineiro. De espingarda em punho, abriu o portão e começou a disparar em direção ao carro. A mulher do porteiro mal teve tempo de ligar o motor. Uma bala na testa pôs por terra o plano de vingança daquele diabético!

quinta-feira, 11 de fevereiro de 2016

Saboreando torrões de açúcar!

Na região da Vila Arens, exatamente em frente ao antigo prédio da Banda (Sociedade Musical e Recreativa União Brasileira), localizada na avenida dr. Cavalcanti, estava instalada, entre as décadas de 1950 e 1960, a Refinaria Santa Maria. O prédio ficava ao lado da Bebidas Ferráspari e, ao lado da Banda estava o prédio da Vinhos e Bebidas Caldas. A introdução é mais para falar da refinaria onde meu tio Antenor trabalhou até aposentar por doença na década de 1960 e, imagino, foi quando a refinaria fechou suas portas. Tio Antenor era solteirão, morava na refinaria e passava suas horas de folga jogando baralho na Banda onde fez muitos amigos. No início dos anos 60, ele almoçava em casa todo sábado e domingo até se mudar para lá na metade desta década já que a refinaria fechara o quarto onde ele passava as noites. E quando vinha em casa, trazia um pacote cheio de torrões de açúcar. Esses torrões surgiam porque este açúcar não se refinava e ficavam os pelotes ou bolotas que a empresa descartava. Jogava fora, na verdade. Mas antes deste ato final, tio Antenor recolhia no pacote e trazia para a gente. Estes pelotes eram pouco maiores que bolinhas de gude e que a gente jogava muito com os amigos que moravam na mesma rua, na Vila Progresso. Tio Antenor não tinha preferência por sobrinho. Chegava em casa com o pacote e entregava ao primeiro que encontrava ou simplesmente colocava sobre a mesa da cozinha. E todos os filhos de seu Alcindo e dona Angelina dividiam o conteúdo do pacote. Dona Angelina apenas orientava para não mastigar as bolotas, mas o gostoso mesmo era sentir o açúcar surgindo, dissolvendo o pelote e sentindo a doçura do açúcar. Naquela época o açúcar era vendido em pacotes de cinco quilos apenas. Era de papelão e costurado na ponta. Precisava puxar as pontas da linha para poder abrir o pacote de açúcar. Em Jundiaí havia apenas o Santa Maria e o União. Mas o segundo, imagino, ganhou todo o mercado e a Refinaria Santa Maria fechou as portas. Tio Antenor, com o fechamento da refinaria deixou de trazer – claro – as bolotas de açúcar para saborearmos. Trocou por balas, mas me lembro de que, já nas décadas de 1970 e de 1980 saia cedo de casa, se dirigia à Banda onde passava o dia. E hoje, ao passar pela região da Vila Arens, no início da avenida dr. Cavalcanti me lembrei dos antigos prédios que ali existiam e, confesso, senti saudade dos torrões de açúcar.

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2016

O Carnaval da minha infância

Objetivo do padre Hugo que dirigia a Cruzada Eucarística Infantil, na paróquia de Vila Arens, no final da década de 1950 e todos os anos da década 1960 era divertir as crianças enquanto os salões ficavam cheios de foliões nos dias de Carnaval. E padre Hugo fazia tudo com alegria e isso proporcionava vibração das crianças. A ação criada pelo padre ocorria no domingo e na terça, dias em que as matinês nos clubes chamavam pelas crianças para “pularem” o Carnaval. E no domingo, o padre reunia os cruzados após a missa das 7h30 e criava brincadeiras até por volta das 10 horas. Retornávamos às 14 horas, exatamente no horário que começavam as matines nos clubes e ali ficávamos até as 17 horas. Para ninguém chegar em casa quando a noite já tinha chegado!
Muitos clubes próximos à igreja da Vila Arens proporcionavam carnaval para as crianças no domingo e terça-feira de Carnaval: Ipiranga, Banda, Nacional, além do Primavera, na Vila Progresso, bem perto de onde eu morava. Mas lá íamos brincar nos salões da igreja! Padre Hugo era bem prevenido: tinha uma infinidade de jogos infantis: dominó, tômbola, damas, trilha, ludo. Jogos que não existem mais hoje e uma biblioteca com mais de cem livros, a maioria vida de santos e outros com muitas ilustrações para “chamar a atenção” da criançada. Lanche às 15 horas com muita fruta e Ki suco para dar mais alegria a todos.
Claro que não faltava um pouco de oração e ensinamentos. Mas padre Hugo sabia dosar as coisas e a brincadeira dominava a tarde. Nossa sala principal era em frente ao coreto, na praça da igreja. Mas ela percorria praticamente todo o porão. Nesta sala ocorriam as reuniões gerais, uma porta nos levava até a biblioteca e mais duas salas menores onde ocorriam as aulas de evangelização de acordo com a idade ou tempo de cruzada.
Acho que é por tudo isso que o Carnaval nunca me chamou a atenção. Minha primeira ida a um salão de baile de Carnaval ocorreu quando trabalhava na Rádio Santos Dumont. Domingo de Carnaval chego para trabalhar, na espera de ficar no plantão, no estúdio, quando sou chamado a acompanhar Gilson Lino à matinê no Grêmio. E lá fui eu entrevistar crianças nos intervalos. “Olha a cabeleira do Zezé”, “Cidade Maravilhosa” e “Coração Corintiano” eram as principais atrações. Abrilhantando a festa estava a Orquestra City Swing.