quarta-feira, 6 de maio de 2026

O garoto

Quando o menino atravessou a rua e veio me oferecer balas de goma por R$ 1, e, por causa da minha pressa – ou desculpa? – disse a ele que tinha Diabetes e que não poderia fazer uso do produto, ele se afastou. Depois, reduziu o passo, foi ficando para trás, mas ao invés de acelerar, parei! Virei para ele, mas o movimento intenso de pessoas, fez com que desaparecesse. Não sei se por encanto ou por desencanto, mas ele estava longe da minha vista. Senti remorso por não ajudá-lo naquele instante. Quando a consciência pesou, o busquei com os olhos, mas não imaginava que o desaparecimento fosse tão rápido. Voltei até a esquina, procurando lentamente por ele. Senti o gosto da bala de goma amargando minha boca. Decidi retomar o caminho quando uma voz me deteve: “tio!”. Virei rapidamente e ali estava ele, me olhando e sorrindo. Senti vontade de abraçá-lo, mas me detive e resolvi puxar conversa? - Quantos anos você tem? - Seis! - Você só tem bala de goma para vender? - Agora não tenho mais. Consegui vender todas. - Mas ainda é cedo, já parou por hoje? - Não tio, vou buscar mais. - E por que me chamou? - Ia pedir desculpas, não sabia que o senhor era doente. Não consegui continuar o diálogo. Senti um nó na garganta. - Tchau! – Disse ele sorrindo. Consegui encostar minha mão em suas costas. Ele parou, me olhou. “Venha comigo”, tomei-o pela mão e o levei a uma padaria, do outro lado da rua. Não perguntei o que ele queria. Seus olhos brilhavam. “Escolha”, disse eu e o vi se deliciar com lanches e doces. Paguei a conta e saímos para a rua. “Tio, preciso ir, vou comprar um lanche pra meu irmão mais velho que está na escola. Obrigado pela comida. Acho que estava com fome”. - Menino, espere. Eu compro lanche pro seu irmão. - Não tio. O combinado com minha mãe é que o lanche para ele é para ser comprado com o dinheiro que ganho. É o dinheiro que compra comida. Seu corpo escapou de minhas mãos. Não tive nem como argumentar. Já do outro lado da rua movimentada, ele me acenou. Se misturou na multidão e desapareceu, sem me dar chance de agradecer pelo bem que me fizera.