quinta-feira, 12 de janeiro de 2012

Nos tempos da Cruzada

Terno azul-marinho de calça curta, gravata borboleta, cabelos bem penteados e lá ia eu, membro da Cruzada. É, Cruzada mesmo, Cruzada Eucarística Infantil da Vila Arens, dirigida pelo padre Hugo! Meninos e meninas com idades entre 9 e 14 anos tomavam conta de boa parte da igreja, durante a missa das 7h30, conhecida como Missa das Crianças, no início da década de 1960. Nos primeiros domingos do mês, é que todo mundo na igreja percebia nossa presença. Neste dia havia reunião geral e a presença de todos era obrigatória. E de uniforme! Uniforme dos meninos era terno azul,  calças curtas, camisa branca, meias três-quartos. A calça curta realçava a meia três-quartos. Meninas usavam vestido branco, meias três-quartos e uma boina, também branca, na cabeça. Na frente, Roberto Batista, presidente da Cruzada, subia a escadaria da igreja, carregando a bandeira. Passávamos pelo corredor central, percebendo o olhar atento dos demais fiéis, presentes à cerimônia. Batista subia os degraus do altar-mor e colocava a bandeira no pedestal e ela ali ficava até o final da missa.
Participávamos da cerimônia compenetrados, atentos, rezando o tempo todo, cantando o tempo todo. Como a missa ainda era rezada em Latim, levávamos livretos de cânticos e nossa voz ecoava pela nave católica. Me arrepiava entoar os cânticos, sentia o olho lacrimejar, a voz embargar...
Apesar do rigor do padre Hugo, sentia falta das atividades semanais se não participasse da missa. E se participasse de uma que não tivesse todo o grupo, me sentia perdido, deslocado.
Me lembro das três Marias que comandavam o grupo e eram conhecidas como "zeladoras". Maria Josefina, Maria de Lurdes e Maria Tereza, três irmãs que moravam numa pequena casa de madeira próxima à rua XV de Novembro, atrás havia linha férrea.
Além delas, Vitória e Vicente, netos do velho foieiro e Roberto Batista, o primeiro e único presidente que vi à frente da Cruzada. Nomes como Roberto Domingues, Afonso Pastro, Max Gehringer, o homem que aparece no Fantástico, Marly, Maria Ângela, a Zeni e a Oliveira faziam parte da Cruzada. A média era de 50 crianças. Dona Leonor era a organista e ajudava nos ensaios de cântico e também preparava as crianças para as peças de teatro que apresentávamos no salão paroquial que mais tarde virou o Cine Vila Arens. Me sentia deslocado trabalhar como "ator", interpretar personagens em peças como "Os tamancos do diabo" e "Viva o general". Ficava vermelho, sentia a voz sumir, mas não perdia a pose, principalmente quando interpretei Satanás e tive que fugir do crucifixo que padre Hugo me acenava da platéia. E era lá do palco que eu procurava, entre os presentes, dona Angelina e seu Alcindo. Com meus 12 anos, achava que estavam orgulhosos de me verem ali.
Acabei sendo o responsável pela entrada na Cruzada de praticamente todos meus irmãos. Com exceção de Ademir, que se tornou congregado mariano, todos foram membros da Cruzada: Ana Maria, Osmar, Antonio e Alberto.
O que não me deixa esquecer este tempo é padre Hugo. Austero, inteligente, cobrando das crianças responsabilidade. Lições inesquecíveis! Nos espelhávamos tanto nele que Antonio acabou seguindo seus passos e trabalha na Diocese de São Paulo, tendo, inclusive, participado do programa "Sagrado", na Rede Globo de Televisão.
Padre Hugo já partiu. Uma partida inesperada, sem tempo de despedidas, mas sua fisionomia, seu olhar, sua mão ajeitando os poucos fios de cabelo, seu sorriso e sempre aquela batina preta, mostrando que ali estava um sacerdote, não desaparecem de minha mente.
A infância, sem dúvida, é a melhor fase de nossas vidas. E sempre traz lembranças inesquecíveis. Mesmo sem existir uma máquina para nos transportar para aqueles tempos, conseguimos voltar até eles.
E o meu maior orgulho é ter convivido com tanta gente importante. E eram. E são! Até hoje. Todos! Muitos, nunca mais vi, outros ouço falar, mas o que faz estes olhos se encherem de água é a recordação de um tempo que resiste aos anos, às décadas e está sempre viva, sempre fresca em minha lembrança.

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