segunda-feira, 22 de agosto de 2011

O homem do Vic Maltema

Seu Pedro, não sei porque, me metia medo. Disposto, forte, trabalhador, era motorista de caminhão. Um caminhão especial: aquele que fazia transporte do Vic Maltema, produto parecido com os que estão hoje no mercado e que era misturado com o leite, sabor chocolate. Mas o medo que tinha dele deveria estar relacionado ao seu problema físico: o motorista perdera um braço em um acidente.
Nunca o vi dirigindo, mas ficava imaginando como ele conseguia manobrar aquele veículo com um braço apenas. Claro que, por causa de meu medo, jamais cheguei até ele ou algum de seus filhos e perguntei como manobrava o caminhão. Jamais, também, tive coragem de perguntar como foi o acidente com seu braço.
Mas nesta minha falta de coragem, mesmo ficando vermelho, gostava de ficar perto dele, mesmo que não trocasse uma palavra com seu Pedro. Minha satisfação era estar perto de uma pessoa famosa. E eu o achava famoso. Nunca soube explicar o porquê, mas o achava assim porque estava escrito no caminhão que dirigia “Vic Maltema”.
Isso, para mim, o tornava famoso. Dirigindo pela cidade, pelas estradas, pelas avenidas. Gostava de ver o caminhão estacionado em frente à sua casa. Me lembro que até entrei uma vez na cabine. Claro que junto com os filhos de seu Pedro – Edson e Adalberto – ou os primos Adilson e Luciano, que orientavam os comandos. Escorregava no banco para alcançar com o pé no acelerador. Roncava com a boca para um fa-de-conta de dirigir pelas ruas do bairro. Só não tive coragem de tirar uma das mãos do volante para me imaginar com seu Pedro... E chegava em casa feliz para dizer aos meus pais que “tinha dirigido” o caminhão de Vic Maltema.
Claro que ele nunca me presenteou com uma lata de Vic Maltema. Também nunca tive coragem de pedir uma. Meu irmão mais velho dizia que ele era só um funcionário, que não tinha salário grande, mas na minha cabeça de criança de seis anos, seu Pedro era dono daquilo. Com aquele “baita” caminhão.
Mas no dia do pagamento de meu pai, lá ia eu até o armazém do seu Valentim comprar uma lata do produto. E isso, às vezes, era uma loucura, pois enchia a colher e a levava direto à boca. Vic Maltema puro! Sem leite, grudando na boca, lambuzando o rosto, mas saboreando um produto que chegou ao armazém graças ao homem que eu conhecia.
Além de trabalhar com aquele caminhão, seu Pedro se dedicava a organizar romarias até Aparecida do Norte. Ele e dona Lídia, sua esposa, lotavam ônibus até a cidade onde existia apenas a igreja velha da santa. E quando, durante a missa, lia-se o aviso de que a romaria estava sendo organizada pelo seu Pedro e dona Lídia, eu não me controlava e dizia para quem estava do meu lado na igreja: “conheço ele, mora perto da minha casa. Ele não tem um braço e dirige um baita caminhão...” Pronto! Estava realizado! Eu conhecia as pessoas que haviam sido anunciadas como organizadoras da romaria! Isso era satisfação demais para mim!
Mas o tempo é muito cruel com a gente. Afasta as pessoas de nós e só percebemos isso quando a saudade aparece. Seu Pedro, que morava na avenida São Paulo, perto do bar do Bizuca, mudou-se para a Vila Arens e o caminhão do Vic Maltema desapareceu de perto de casa.Perdi o contato com ele, com a família, o tempo afastou um do outro. A casa onde eu morava não existe mais. A casa onde ele morava também não existe mais. O que existe, hoje, é a certeza de que a velocidade do tempo é muito maior do que qualquer caminhão. Mesmo que seja de Vic Maltema...

13 comentários:

  1. Olá Nelson,
    No caminhão do Sr. Pedro Zeni, ou Vic Maltema, minha família ia de Jundiaí até Conchas - SP me visitar quando eu estudava do Seminário Salvatoriano de lá. Grandes lembranças.

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  2. Realmente grande lembrança! Gostaria de ter seu nome. grato

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  3. Num encontro em breve te contarei pessoalmente.

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  4. Os leitores gostariam de saber sobre você

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  5. Vamos manter o suspense por enquanto. O filho do Sr. Pedro Zeni também estudava no seminário. Razão do porque das visitas com o caminhão do pai dele. Lembro-me de como ( acho que era Luiz Carlos o seu nome) sofria na mão dos outros 40 e tantos moleques seminaristas da época, por ser gordinho, por fazer xixi na cama. Coitado. Cada um que acordasse no meio da noite, ia até a cama dele e fazia-o levantar para ir ao sanitário. Sabe quando ele dormia uma noite inteira? Nunca.
    Mas o lado bom das visitas familiares: tudo o que nos levavam de comida era partilhado inclusive o Vic Maltema.

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  6. Histórias que fazem parte de nossas vidas! Mantendo o suspense para ver se disso tudo não surge um texto novo. Obrigado por vir aqui e ler os textos. Aproveite e divulge a seus amigos

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  7. Lia (liazeni@hotmail.com15 de março de 2012 16:24

    Olá Nelson e Anonimo! Esse texto há algum tempo foi publicano num jornal de Jundiaí, e infelizmente não pudemos tecer comentários. Via a internet, que diminuiu o mundo e hoje podemos fazer um comentário seja lá de onde for. Por exemplo estou no Pará! E eu, sou a Maria Elidia, e como recebi o nome da minha mãe, fui conhecida por Lidinha, ou LIA. E agora devidamente, poderei entre outras coisas, o acidente que tirou parte do braço do meu PAI. Foi numa fabrica têxtil com o nome de Milani, que funcionava onde hoje está a Receita Federal. Ele ainda solteiro, mas já namorando minha mãe, com apenas 21 anos,sofreu um acidente de trabalho, na desencaroçadora de algodão. E se você Nelson, se "sentia", conhecendo o Pedro Zeni, imagina eu, nós filhos que mesmo com um braço, casou-se teve 11 filhos e criou 9. E sobre a Romaria, de fato, minha casa era uma loucura quando da Romaria. Era toda hora pedindo para guardar lugar, depois para pegar a passagem e pagar. E os preparativos então??! avisos, canticos etc etc... enfim.. vivi tudo isso , e apesar deles não estarem mais eu completei um ciclo de 50 anos de Romaria de Jundiaí.
    Como a filha mais nova, não conheci o Vic Maltema, tão pouco pude encher a colher e levar direto a boca rsrsrsrsrs.
    Vejo esse texto como uma homenagem ao meu PAI o Pedro Zeni, que tinha um braço só e dirigia um caminhão, que organizava a Romaria a Aparecida entre outras tantas historias.
    Por isso só faço agradecer!!!!
    Abraços a todos que conheceram e ou ouviram falar desse grande Homem!

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  8. Maria Elídia, tudo bem? Felicidade enorme ao ver seu comentário no meu blog sobre seu pai. Não sei como conseguiu o endereço do mesmo, mas o que importa é nos reencontrarmos aqui, depois dos tempos da JCM ou Cruzada. Muito feliz ao ver seu comentário. Quando publiquei o texto no JJ há anos passados, eu tinha contato com seu irmão que teve morte triste com o cancer e era casado com a filha de meu primo Norberto Perboni. O tempo passa, a vida passa, e vamos nos afastando das pessoas que nos presam muito. Saudade dos tepos de infancia e de ter conhecido seus pais e ter convivido com quase todos seus irmãos. Não percamos contato, afinal, a vida é curta demais para a gente ficar esperando um dia, lá na frente, prá relembrar belos fatos da vida.

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  9. Olá Nelson, sou Edison filho do Pedro Zeni(O Homem do Vic Maltema.
    Esta semana por acaso estava na frente do computador, quando resolvi digitar do Google Vic Maltema fiquei surpreso quando abri o seu blog, confesso que a emoção foi muito grande ao ler e lembrar de tudo, quanta saudades.
    Gostaria muito de te encontrar para um bate papo, se for possível envie mais informações para o meu e-mail: zeni1947@gmail.com para agendarmos um encontro.
    Hoje moro em São José dos Campos, estou aposentado.
    Sem mais, agradeço e aguardo sua resposta.
    Grande abraço.
    Zeni

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  10. Parabéns, sua historia é bastante comovente e bem contada.
    Eu só posso dizer que fico contente e orgulhoso por meu filho Tiago ser casado com Carina Zeni parente deste honrado e querido senhor Pedro Zeni.
    Me lembro de certa vez ter me deparado com a marca Vic Maltema.

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  11. Boas lembranças. Falando nisso, o PRODUTO VIC MALTEMA não existenciais? A fábrica fechou? Sabe de dizer?

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  12. Meu pai (também falecido), sempre falava que adorava o tal Vic Maltema. Infelizmente nunca tive a satisfação em provar, pois só escuto falar bem. Ele trabalhava como vendedor no armazém do meu avô, em Santos, litoral de S. paulo. Dizia que quando meu avô não estava por perto, comia o tal vic maltema escondido. Rs.

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  13. Hoje, estava eu comendo Nescau e pensando na vida, quando me lembrei que na minha infância gostava de comer Vic Maltema. Claro que fui procurar no Google e encontrei seu Blog. Gostei muito da sua crônica. Delicada, bem escrita e cheia de sentimento. E lí também todos os comentários. Embora não conheça nem a você e nenhum dos seus leitores senti-me emocionada como se conhecesse a todos, inclusive ao Sr. Pedro. Obrigada.

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