quarta-feira, 22 de julho de 2015

PERSONAGENS (17) O comendador Gumercindo Barranqueiros

Conheci o comendador Gumercindo Barranqueiros quando consegui meu primeiro emprego com carteira assinada. Isso foi no ano de 1968, quando fui trabalhar na Rádio Santos Dumont de Jundiaí. Entrei para pedir emprego na técnica de som e o locutor do horário me colocou no estúdio. Li meu primeiro texto no ar e cinco minutos depois, um rosto apareceu do outro lado do estúdio, na técnica de som e desapareceu. Arrumei o emprego e o locutor me informou que o rosto que apareceu ali era do “dono da rádio”. Imaginei que fora aprovado por ele.
Alguns dias depois acabei cruzando com o comendador nos corredores da rádio que ficava na rua Barão de Jundiaí, em frente à rua Coronel Leme da Fonseca onde hoje tem uma loja da Casas Bahia. Na parte de frente do prédio havia um auditório onde aconteciam programas ao vivo e, ao lado, um portão que levava até os estúdios, subindo uma escada de sete ou oito degraus. Do lado direito, descendo três degraus era o acesso à casa dos Barranqueiros, donos da rádio. Eram poucas as vezes que o comendador subia até a rádio. E eram também poucas as vezes que o via nos corredores. Mas sempre tinha uma frase quando conversava com algum funcionário da emissora e sempre completava: “no meu tempo de rádio em Itu...”
Quando havia transmissão externa de jogo – e eu fazia o plantão esportivo – ficava observando, do estúdio, a correria para colocar os locutores no ar. Como o Paulista disputava, na época, o acesso à divisão principal, era fundamental a transmissão dos jogos. E quando se aproximava o horário do jogo e a ligação telefônica para a transmissão não se completava, via-se, entrando na técnica de som o comendador: tipo bonachão, simpático, sempre com um ar sério no rosto, mas um sorriso escondido para explodir na hora de o problema estar resolvido. Sentava na técnica, enquanto alguém seguia suas instruções. Plug daqui, plug dali e... “Boa tarde ouvintes da rádio Santos Dumont...” Quando o locutor iniciava a transmissão, o comendador se levantava sorrindo, acenava para o estúdio onde eu e seu filho Claudinê estávamos e descia para sua casa. Claudinê deixava o rádio de pilha comigo, sintonizado nas emissoras da Capital e também ia embora.
Ver o comendador nos estúdios era difícil, mas ouvi-lo falando em sua casa, na parte debaixo do prédio, não era. Ele estava sempre por ali. Voz forte, grave, era ouvida sempre com um comentário sobre alguma música que estava tocando ou sobre a notícia que acaba de ser lida no ar. Como eu tinha um programa que entrava no ar diariamente às 17 horas, mas chegava à emissora às 14, parte de meu tempo ficava na discoteca, selecionando os discos e as músicas para serem apresentadas depois, e era dali que se ouvia os comentários do comendador, principalmente com respostas de dona Paulina, sua esposa.

Não me despedi dele quando deixei a rádio no final de 1969, quando fui trabalhar como revisor no Jornal da Cidade, mas me lembro que alguns anos depois, seu filho Péricles me ligou para informar o falecimento de seu pai. E fui que publiquei nota, informando de seu repentino falecimento. Um enfarto fulminante levou o homem de voz forte, jeito bonachão e que gostava de contar histórias de seu tempo de trabalho na rádio de Itu.

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